É preciso ter fé na palavra
para pôr a palavra de pé.
É preciso ter palavra
em cada pé do poema.
E o poema vai andar,
correr,
voar.
E a palavra vai dar
pé.
Essa breve conjectura
Em que o texto se conforma
Nem no tempo se deforma
Se o fixamos na nervura.
Toda palavra é futura,
Todo sentido um emblema.
O tempo todo é um teorema
Que na palavra perdura.
Espelhada na retina,
A memória se destina
Ao biologema gravado:
E as versões do pensamento,
No virtual passatempo,
Codificam o eterno estado.
A boa idéia é como um clipe, assim,
Entre papéis, arame retorcido.
Ao clipe, o que lhe serve é ter servido;
Da idéia, o que nos serve é ter um fim.
A idéia, se complica, já é ruim;
E a poucos servirá, se contorcida.
Põe-se num clipe a idéia interrompida,
E a idéia aguardará a hora e o dia
De cumprir seu papel e, quem diria,
Pode a idéia ser vida, se servida.
Lutar com batatas
Não é nonada não:
É
Colher flor de espuma
Em pedra-sabão.
Teu rosto já marca meu peito, meu passo;
Teu toque me faz levantar, recolher;
Tuas cordas me amarram ao que devo fazer,
O feito e o refeito em teu fio refaço;
Te tenho, me tens: em meu braço te enlaço;
Te levo, me levas (quem vai se perder?);
Me guias, te guio: teu ser em meu ser
É a bússola certa, meu norte, compasso.
Por certo, o sentido da minha existência,
Que o teu mecanismo mediu, computou,
Nas horas, minutos, segundos, refaz-se.
Meu ser se confunde na tua cadência;
No peito e no pulso, uma máquina estou:
Mecânica, a vida desfaz-se e renasce.
Jogam-se as letras no chão,
E a terra devolve o grão,
Em mágica germinal,
Na ceifa do cereal.
Assim como a espiga brilha,
E o seu remoer polvilha,
O ato em palavra é ação,
E a lavra do lábio é pão.
A voz de quem fala é messe,
E a messe em palavra é prece:
Quem planta o que a voz não tolhe
Rejeita mais que recolhe.
O risco em palavra é arado,
Com seu passo ruminado,
Cavando no texto a fenda
Onde a vida se desvenda.
Como rotas borboletas,
De asa invisível, incolor,
Eles usam roupas pretas
Enlutando a própria dor.
Diríeis que são tão leves,
Que um pé-de-vento os levou.
Diríeis que são tão breves,
Que um só minuto os matou.
Rotos, breves, pé no chão,
Diríeis que nada são,
Posto que são quase nada:
Mas, de natureza alada,
Um dia eles partirão
Como anjos em revoada.
Um baobá nasceu em meu jardim,
Nasceu no meu pomar, no meu quintal!
Meu Deus, como é visível o essencial:
Com banda marcial, mofa de mim.
Sorri-me o essencial, sorri carmim.
Aos olhos, é risível e digital,
É luz estroboscópica, é fanal:
Vegetal elefante, drag queen.
Em meu jardim, passou uma raposa
Querendo cativar-me, mas, medrosa,
Arisca, se escondia em meu pomar.
Enfim, arrisca amar-me em verso e prosa.
Em troca, dou-lhe o essencial a rosa
Que o meu poema quer para o jantar.
A fila de formigas vai passando,
E mais parecem homens no andar!
Quem vê diz que elas falam vez em quando,
Mas sobre o que as formigas vão falar?
Algumas de vergar vão-se arrastando,
Não sei a que calvário vão chegar...
E outras, bem ao lado, vigiando,
Parecem ao grupamento comandar.
Exército de escravos construindo
Pirâmides e túneis lentamente,
Trabalham dia e noite, eternamente.
Formigas que de homens vão fingindo,
Insetos que na fila vão seguindo
A mesma trilha, enfim, humanamente.
De mãos suaves, intangível ser,
És nada, és pó, e tudo fabricaste.
És pulso, és pulveráceo fio, engaste
Violáceo da flor do amanhecer.
Artífice do caos, tu plasmaste
Do vácuo a luz, da morte o renascer.
A vida é teu vagido, e teu pascer
Brota do chão em cada verde haste.
Num balido de muda iridescência,
Segue-te cego o celestino gado,
A ruminar o pasto iluminado.
E tudo de teu nada tem a essência:
Se és futuro, és presente e és passado,
A Via Láctea segue o teu cajado.
Não posso amar-te:
Prefiro amor-te.
Tuas lágrimas vertem
Como mentem as águas
Que vêm perder-se
Na seca verde.
Teu sorriso encanta
Quando o embebe o pranto:
Como a lua lume
Numa areia nua.
Uma palavra, como planta, cravo,
Com seu cheiro e travo,
Veio, com saudades
E asas,
Saudar-me com sabor de canto: riso,
Quase guizo,
Humor.
Há um tempo para tudo:
Vem o tempo de vento,
Vai o tempo de flor;
Vem o tempo de chuva,
Tempo de maturi.
O sabor do caju
A piroaba gera.
E o travo do caju
É a inevitável espera.
Da janela entrevejo
O voejo da névoa,
Um tempo sem nódoa,
Luar de cereja.
O que em mim flutua
No ar verseja;
O que no ar fulgura
Em mim enseja.
O bico do teu seio,
Certa vez encontrei-o,
Talvez por desleixo,
Como um seixo,
Na curva do teu queixo.
As estrelas,
Só de noite é que podemos vê-las;
Só na canção podemos recolhê-las;
Só na música podemos tangê-las, pastorá-las
E mungi-las,
Vacas siderais.
Sós, bem sei,
Já não podemos sequer ouvi-las.
Quero fazer seu leito
Lácteo,
Via cândida,
Mente e corpo
Unos,
Planos,
Plenos
De uma eternidade
Pontual,
Estelar,
Quase quasar.
Quero pulsar
E constelar-me em seu
Universo em Vê,
Verso e reverso
De meu Á,
Vice-versa,
Verso, poema,
Colchão de estrelas,
Diadema.
O eme da tua mão
Na minha já treme em ais:
Sêmen,
Semente,
Semema,
Senha de corpos celestiais.
O espelho vê a filha,
E um fio de cabelo
Espera a mão da mãe
Que induz
O espelho da filha:
Fagulha de vida,
Centelha irisada,
Carimbo de luz.
Ouço o tempo roçar nos teus cabelos
Rimas raras que só o tempo traz,
Que não se esvaem da memória mais,
Depois que desenrolam seus novelos.
Por mais que eu morra, sempre vou vivê-los
- Esses momentos - , por viver demais.
Por mais que viva, a vida se refaz
No inefável poema dos teus zelos.
Por mais que o tempo enrede o labirinto,
E a Górgona me queira lapidar,
Encontrarei no fio do que sinto
O rito da tua a voz a versejar,
E a luz de teu olhar do céu retinto:
Imagem do infinito especular.
O arado singra o seio do papel,
Carena sobre o mar e sob o céu:
E sobre o veio aberto a sementeira
Escreve a poesia verdadeira.
E, mesmo que ele seja digitado,
O verso ainda assim é semeado.
Ainda que no espaço virtual,
A poesia é magia, é ritual.
Ainda que na tela cintilante,
Mais brilho tem o verso flamejante.
Embora a Internet o embarace,
Navega o verso livre entre correntes:
Unindo os desunidos continentes,
Ulisses volta a Ítaca em disfarce.
O luar me sorri um riso ruim,
Um riso de felina insanidade;
Ou será que disfarça a propriedade
Esse luar de chino mandarim?
O luar me sorri, e penso assim:
O que quer o luar nesta cidade?
Do Oriente me traz a claridade
Que vem luzir com seu sutil marfim...
Felino mardarim do firmamento,
Retorna ao Oriente, donde vieste,
Retorna ao oriental pouso celeste.
Não te sei decifrar o claro intento:
Talvez porque te falte o ideograma,
Talvez porque me esfrie a tua chama.
Eu não sei se é de dor que a gente canta;
Também não se é de amor que a gente geme.
Sei que há dia em que o barco perde o leme,
Pois se perde no mar que se agiganta:
Tempestade só tem quem vento planta.
Dor e amor, qual dos dois mais assassina?
O amor cega, e a dor tanto alucina;
Quando juntos, são fel e mar salgado:
É perdido quem mais ter procurado
Entender o sentido dessa sina.
Patativa, no céu foste morar:
Cá na terra o teu canto emudeceu.
Canta lá, Patativa, e canto eu
O silêncio que está no teu lugar.
Nos ecos do sertão, ouço aboiar
Na memória do povo um canto teu;
Tua triste partida aconteceu:
Patativa, era a hora de arribar...
Se cá na terra o canto, que hoje chora,
Comovia a celeste habitação,
Imagino, poeta, como agora
Ressoará tua canção de outrora
Lá do infinito sobre o teu sertão,
Como chuva entre o sol da nova aurora.
Tuas cifras traduzem minha vida:
Minha vida é somar e dividir.
Se especulo, teu espelho vem luzir
Em meus olhos, na imagem refletida,
A fração desta alma dividida.
Nego o ócio e eu teu seio negocio;
Não sacio teu sexo nem teu cio...
Já computo e compito bestialmente,
Reifico meu ser e minha mente:
Coisifico-me e em cédula esvazio.
Sou redoma de vidro e de metal,
Onde escondes teu rosto e presunção.
Nascido de tua pressa, o coração
Me negaste no plano original,
E em meu sangue injetaste um gás letal.
Minha estrada é de cruzes ladeada:
Tua cruz corta a minha encruzilhada.
Ingrato ao criador, sou criatura,
O monstro que montaste, a viatura
Que leva o criador ou é levada?
O sentido do ser está no mar
Quando os deltas de seios bojudos
Movem os barcos dos ventos manteúdos.
O sentido, esse véu, perpassa o ar
E se cose com a linha limiar;
Vence o mar e digere a tempestade;
Sorve o abismo a abissal salinidade.
O sentido do ser é um destino:
Vem no sopro da praia matutino
E se esvai entre os lábios com saudade.
Uns versos tristes vez em quando faço;
Uns versos tristes faço quando em vez.
Nem sempre é disponível a insensatez,
Nem sempre o picadeiro é do palhaço.
Há dias de trapézio, e o fio de aço
Da corda bamba baboleia manco;
Há dias de mostrar-se frio e franco:
De artístico cansaço, há sempre o dia.
É quando na platéia se esvazia
A poesia de um saltimbanco.
O meu corpo em teu corpo se presume,
Doce gozo que em sal se purifica.
Quando abres teu mar, minha alma fica
Na praia, onde o tempo se resume.
E vai meu corpo, barco, vela e vento,
Teu oceano vai varando lento.
Dos ventos, colho a rosa e a aragem:
Toda rota do mar tem teu destino,
Todo senso mareja em desatino
No meu mastro, eu hasteio a tua imagem.